sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Mera Quimera

 


Imagem ilustrativa


Ante a chegada do ano dois mil, milhões de cristãos se viram na iminência do retorno de Jesus Cristo à Terra, num processo de arrebatamento daqueles que lhe foram fiéis. Ao mesmo tempo, os invigilantes e perversos sofreriam duro julgamento, sendo conduzidos a um reino de dores e amarguras sem fim. 

Interpretados ao pé da letra, os ditos evangélicos ganharam um contorno de Armageddon, final de um ciclo evolutivo e começo de outro, onde finalmente o bem preponderaria sobre o mal. 

Profecias do povo maia foram amplamente divulgadas, vaticinando o fechamento catastrófico de um período e começo de outro, assinalado pelo predomínio da luz..

Em quase todas as épocas da história humana arautos e gurus, profetas e missionários se fizeram vozes da transformação brutal, como se a Divindade necessitasse da hecatombe e da destruição em massa para reorganizar o caos moral que ora se abate sobre as criaturas humanas. 

Um eterno litígio entre as forças do bem e do mal, ainda reflexo do maniqueísmo ancestral. 

Poucos conseguiram enxergar uma evolução paulatina, metódica, apoiada na maturidade dos seres para a grandiosidade da vida. Religiosos fanáticos, ainda abundantes nos tempos presentes, manipulam a ingenuidade popular, espalhando medo e pânico em mentes frágeis, temerosas das garras de seres diabólicos. 

Estudassem as escrituras pela sua elasticidade dialética, pelo contexto histórico e dilatassem a percepção espiritual, veriam diferente cenário proposto pela Misericórdia Divina em relação ao crescimento e despertamento da consciência espiritual.

Responsabilidade no lugar de culpa. Não destruição da casa planetária, a pretexto de purificar o gênero humano, mas sim sua renovação pelo berço e pelo túmulo, em constante vaivém de almas que se emboscam na matéria densa pela concepção e outros que dela se retiram todos os dias pela morte corporal, regressando ao verdadeiro lar.

O incessante intercâmbio entre encarnados e desencarnados pelo conduto da paranormalidade. 

A necessidade urgente de se combater as más inclinações e educar-se para viver e conviver em harmonia.

O cultivo diário da meditação e dos instantes de silêncio interior, abrindo espaços mentais e emocionais para suportar as amarguras da existência física. 

O exercício da solidariedade, o cultivo da fraternidade e a ação focada no bem, a fim de semear no mundo uma sociedade mais justa e saudável. 

Perceber-se espírito imortal, temporariamente aprisionado num corpo material para o desiderato da evolução. 

Amar e amar-se sem retentivas narcisísticas e sem lançar grilhões sobre os afetos.

Administrar coisas e posses temporárias sem julgar-se senhor da seara, mas sim mordomo de recursos dos quais terá que prestar contas um dia. 

Conhecer os princípios para entender os efeitos. Abandonar a ideia de um deus jogando dados pela sorte de seus filhos, ante a fascinante percepção da existência de leis imutáveis e justas, que conferem a cada um o resultado de suas ações ou omissões.

Cultivar religiosidade, independentemente de religiões organizadas.

E quando perceba que o crepúsculo da existência física anuncia a derrocada da estrutura corpórea, nunca agasalhar o medo da morte ou labaredas ilusórias além da neblina de ossos e cartilagens em decomposição. Fazer da consciência seu maior juiz, do amor seu rábula e aceitar a mudança de domicílio com confiança e otimismo, regressando em paz para o reencontro com o Senhor da vinha. Interpelado por Ele acerca dos labores no mundo, apresentar a enxada gasta no solo da edificação íntima, o alforje vazio de sementes, que ficaram no mundo para florescer e a confiança de quem aguarda do Senhor dos mundos nova tarefa a ser desempenhada no porvir sem fim.

Tudo mais será quimera. 

Entre Deus e Seus filhos, somente o amor. 

Deus é amor.

Marta (Espírito)

Salvador, 19.12.2025


Médium: Marcel Mariano



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