Imagem ilustrativa
Novamente convidada ao Ashram do venerando mestre Rabindranath Tagore, ali chegamos numa tarde coroada de luzes de difícil descrição. Um céu tingido do azul do dia, já esmaecendo as cores na aquarela da noite, que se avizinhava em triunfo. Ao longe, uma montanha imponente, ostentando em suas escarpas uma cachoeira colossal, fazendo suas águas desabarem do alto, caindo no lago abaixo qual véu de noiva em tarde mágica de núpcias divinas. Aves multicoloridas cruzavam os céus naquele crepúsculo, certamente buscando refúgio para a noite que não tardaria a chegar.
Tudo era silêncio e música no ar. Um delicioso aroma de sândalo perfumava o ambiente, santuário do poeta das estrelas e da estesia lírica.
Em esteiras de palha, sentamos-nos em atitude tipicamente oriental, buscando sossegar o pensamento acelerado, típico das criaturas desacostumadas com a prática da meditação e do silêncio interior.
Ele chegou suave como a brisa da manhã. Longas barbas, brancas como a neve do Himalaia. Olhar sereno e profundo, parecia nos falar sem a articulação da palavra. Sri Aurobindo, outro avatar, o acompanhava em majestoso silêncio.
Sentaram-se como nós, os sedentos discípulos, ali buscando a essência da verdade.
Um mantra suave se fez ouvir, como se alaúdes e violoncelos invisíveis, tangessem brandas cordas, evocando desconhecida sinfonia da primavera, pois que o santuário do venerando apóstolo exibia flores por todos os lados. Não saberia dizer, no meu deslumbramento, se estávamos num recanto da Amazônia, no parque nacional do Serengueti, na Tanzânia, ou no vale do Tirol, na Áustria, em plena estação primaveril.
A sinfonia de cordas fez um suave staccato e o embaixador da paz nos presenteou com seu verbo, como se ainda estivéssemos nas ruas de Atenas, a ouvir Sócrates junto com seus alunos, nos primórdios da filosofia.
~ Filhos e filhas do altíssimo, conhecemos a busca de cada um nesse ambiente de contraste. Enquanto no planeta a selvageria espalha seu rol de misérias e atrocidades, podes fruir aqui da paz inexistente no orbe das lágrimas e das expiações dolorosas. Nenhum de nós está ou permanece indiferente ao clamor das viúvas e dos órfãos, ao choro agoniado dos homens despedaçados pelos obuses e pelos drones cirúrgicos. O arsenal nuclear, ora sustentado por alguns países, é ameaça real contra o restante da humanidade, e qualquer descuido de um dedo ansioso pode ceifar, em questão de horas, as construções da inteligência e do conhecimento, construídas em milênios de história.
Entretanto, o sublime pastor prossegue vigilante, enviando ao cenário trágico do mundo seus embaixadores, buscando iluminar consciências e diminuir as tensões reinantes nos gabinetes da política rasteira.
César ainda se locupleta no mundo, pelejando por corpos e corações de pedra. Jesus, o Excelso Guia, clareia mentes em turvação e pacifica, pelo amor, as imensas dores e aflições, qual dolorosa pandemia moral, a espalhar seu bafio pestilento entre as criaturas humanas.
Regozijai-vos!
Bendizei Sua misericórdia infinita!
As estruturas da civilização atual estão a desmoronar, dando espaço a outras colunas, erguidas pelo suor e sacrifícios de servidores abnegados, que se espalham no mundo qual imenso exército de formiguinhas, semeando a esperança e a gentileza.
Regressai aos vossos postos de trabalho, tomados de otimismo e alegria, confiança e fé. Acima dessas ocorrências passageiras, onde a guerra parece triunfar sobre a paz, o iníquo gargalhar sobre o ético, a esperteza zombar da honra e o violento estender seus domínios sobre vastos corações humildes pairam a bondade de Deus e a atuação de nosso Senhor Jesus Cristo e seus emissários, diluindo a escuridão com o clarão do amor, a agressividade desidratada pela amorosidade e a indiferença aos párias será banida pela solidariedade, a ressumar da restauração do Evangelho nas suas bases primitivas.
Namastê!
Ergueu-se da posição de lótus e saudou com um gesto, curvando o rosto diante de todos nós.
Uma sensação jamais sentida invadiu-nos os corações e impossível foi conter a torrente de lágrimas.
Quais duas efígies de luz, ambos diluíram-se à nossa frente, deixando delicioso aroma no ar.
Alguém do meu lado perguntou-me se poderia identificar aquele cheiro inebriante. Pude apenas responder:
~ Perfume de amor.
Saímos.
Já era noite e os pirilampos de Deus incidiam seus clarões sobre a Terra em sombras.
E o trabalho prossegue, sem solução de continuidade...
Marta (Espírito)
Juazeiro, 09.10.2026









