segunda-feira, 18 de maio de 2026

A MULHER NEGRA DE MOISÉS.

 


A MULHER NEGRA DE MOISÉS.


A mulher negra de Moisés não é um detalhe sem importância dentro das Escrituras. Ela aparece num dos momentos mais reveladores da Bíblia, quando Miriã e Arão criticam Moisés “por causa da mulher cuchita com quem havia casado” (Números 12:1). O termo “cuchita” vem de Cuxe, uma região historicamente associada aos povos africanos ao sul do Egipto, localizada na área que hoje corresponde principalmente ao Sudão e à Etiópia.


Nos registos históricos antigos, Cuxe era um poderoso reino africano, conhecido pela sua riqueza, organização militar, cultura e influência sobre o Egipto em determinados períodos da antiguidade. Os cuchitas eram identificados pelos povos do Oriente Médio como africanos de pele negra. Diversos historiadores, arqueólogos e estudiosos bíblicos reconhecem essa ligação histórica e geográfica.


Por isso, afirmar que a mulher de Moisés era negra não é uma invenção moderna nem uma tentativa de adaptação cultural. É um reconhecimento histórico, bíblico e geográfico. O próprio texto faz questão de destacar sua origem porque, naquele contexto, ela era vista como estrangeira e diferente. A reação de Miriã e Arão revela preconceito étnico e racial, algo que infelizmente acompanha a humanidade há séculos.


O mais poderoso nessa narrativa é que Deus não permanece em silêncio diante da discriminação. A crítica contra a mulher cuchita transforma-se num julgamento divino contra aqueles que levantaram preconceito contra ela. Isso mostra que a dignidade humana está acima das barreiras criadas pelos homens.


A importância de afirmar que ela era negra está também na reparação de uma memória apagada ao longo do tempo. Durante séculos, muitas representações religiosas embranqueceram personagens bíblicos e afastaram a África do centro da história espiritual da humanidade. No entanto, a Bíblia está profundamente ligada ao continente africano. O Egipto foi refúgio de povos bíblicos. Cuxe é mencionado diversas vezes nas Escrituras. Povos africanos participaram activamente das narrativas sagradas.


A mulher negra de Moisés torna-se, então, símbolo de presença, resistência e verdade histórica. Ela lembra ao mundo que a negritude nunca esteve fora da história de Deus. Pelo contrário: esteve presente desde o princípio, mesmo quando muitos tentaram esconder essa verdade.


Reconhecer a sua identidade é também devolver voz às mulheres negras que foram silenciadas, invisibilizadas ou reduzidas ao esquecimento. A sua existência bíblica quebra estereótipos e reafirma algo essencial: a grandeza, a espiritualidade e o valor humano nunca dependeram da cor da pele.


Por: Josmar Atalaia ( José Lubango ✍️)

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