sexta-feira, 5 de junho de 2026

Deixem o carnaval para fevereiro. Junho pertence ao forró.

 


.O Som da sanfona silenciada


Senhor do Bonfim amanheceu em festa. Bandeirolas espalhadas pelas ruas, luzes coloridas desenhando o céu e o povo carregando no peito o orgulho de viver na terra que ostenta o título de “Capital Baiana do Forró”. Era para ser um dia de celebração da identidade cultural, da memória nordestina, do som sofrido e alegre da sanfona, do triângulo e da zabumba. Mas, no lugar disso, o que se viu foi um gigantesco trio elétrico rasgando as avenidas como se fevereiro tivesse invadido junho.


No aniversário de emancipação política da cidade, Bell Marques surgiu no alto de um mega trio, arrastando uma multidão em clima de carnaval fora de época. E a pergunta ressoa no coração de muitos bonfinenses: onde ficou o forró?


Não se trata de negar talento a ninguém. Nem de proibir ritmos. A música é livre. O problema nasce quando a cultura local passa a ocupar o banco de trás dentro da própria casa. Quando o espaço dos sanfoneiros vai sendo reduzido até caber apenas nos cantos da programação, enquanto os holofotes gigantescos iluminam artistas que nada têm a ver com a essência do São João nordestino.


O forró não é apenas música. É identidade. É herança. É resistência cultural. Cada puxada de fole carrega a poeira do sertão, a saudade das noites frias de junho, o cheiro do milho assado e a simplicidade de um povo que aprendeu a transformar sofrimento em dança. O triângulo e a zabumba não precisam competir com guitarras elétricas; precisam apenas ser respeitados.


Transformar uma festa junina em carnaval é como trocar a alma da casa por uma fantasia passageira. O povo pode até pular, cantar e seguir o trio, mas muitos carregam por dentro a sensação amarga de ver o verdadeiro forró sendo empurrado para escanteio, quase pedindo licença para existir na própria capital que deveria defendê-lo.


Deixem o carnaval para fevereiro. Junho pertence ao forró. Pertence ao sanfoneiro anônimo que passa o ano inteiro esperando a chegada desse período para mostrar sua arte. Pertence ao casal que dança agarradinho ao som de um xote. Pertence ao nordestino que vê na sanfona um pedaço de sua própria história.


Quando os tambores elétricos abafam o som da zabumba, não é apenas a música que perde espaço. É a cultura que vai sendo lentamente silenciada.


E talvez a maior revolta não esteja no trio elétrico em si, mas no medo de que um dia nossos netos conheçam o São João apenas como um carnaval vestido de camisa xadrez.


Não vamos curtir esses carnavalescos ocupando o lugar dos sanfoneiros. Essa é a minha opinião, você tem o direito de concordar ou não.


João Carrilho,  29/05/26.

Nenhum comentário:

Postar um comentário