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Dentre os muitos distúrbios ou síndromes da atualidade, um deles se apresenta na atual civilização como sendo um imenso desafio e paradoxo para os tempos modernos.
A solidão parece um contrassenso nesses dias de tecnologia e robotização, redes sociais e intenso fluxo de informações e notícias, de polo a polo da Terra.
Não obstante milhares de satélites em órbita do planeta, facilitando transações bancárias e facultando a medicina virtual, com cirurgias delicadíssimas, realizadas por robôs e médicos à distância, temos no solo do mundo incontáveis multidões que deambulam à cata de um amigo.
Se constata a solidão na infância, quando os pais são obrigados ou se ausentam deliberadamente da função de educadores do espírito no seu ingresso na matéria, confiando esse mister a terceiros remunerados, e o infante sente a falta da ternura materna e da energia paterna. Jovens e adolescentes, buscando os parceiros para as primeiras experiências no campo da afetividade, e muitas vezes lidando com tipos vazios, encharcados de luxúria, como se o parceiro ou parceira fosse objeto simples e descartável de seus caprichos e ilusões.
Incontáveis moços e moças buscando a vida religiosa, não com o propósito de localizar um sentido existencial, mas sim como fuga de uma sociedade que parece ter esquecido a solidariedade e o interesse pelo outro.
Os adeptos de maratonas intermináveis de trabalho, workaholic para a cultura inglesa e ergomaníacos, para os latinos. Seja o que for, é possível identificar em muitos fanáticos pelas intermináveis horas de trabalho como fugitivos da convivência familiar ou social, optando pela entrega abrasadora ao serviço de repartições públicas ou escritórios fechados.
A solidão, livremente escolhida por mentes lúcidas, faculta espaço para saudáveis reflexões, enseja momentos de estesia e permite a muitos uma larga produção intelectual. Músicos, poetas, compositores e outros fruem, nesses instantes de soledade, de inspirações geniais, produzindo obras de arte para o deleite das demais criaturas humanas, mas a abstenção das permutas interexistenciais sinaliza, em muitos casos, medo ou pânico, fuga ou trauma de se estar numa convivência com terceiros.
Observa-se, nos tempos presentes, muitas pessoas adotando um estilo de vida solitário, mas preenchendo os espaços domésticos de animais, a que devotam um cuidado que excede os limites do aceitável. Por isso mesmo, tem-se um fenômeno de humanização dos animais e uma animalização do ser humano.
E, penetrando o cerne profundo do ser, a solidão vai erguendo muros e barreiras numa sociedade que se ufana das comunicações instantâneas, mas estertora na ausência de uma afeição querida.
Analisando a vida dos mártires cristãos, é de se notar como a maioria teve uma vida solitária, após a conversão aos princípios da mensagem libertadora.
Oravam a sós em desertos e montanhas, grutas ou descampados. Pagavam com a vida por afrontarem as imposições religiosas da época, não raro seguindo solitários pelos ásperos caminhos do testemunhos.
Estavam a sós... com Deus.
Cada um, a seu tempo, experimentará a solidão vez por outra. Quando chegar o tempo de sorver essa amarga cicuta, recorda-te D'Ele.
Um nascimento tendo os pais e alguns animais domésticos por testemunhas. Entre os doze e os dezoito anos não se tem notícias de seus labores. Depois, foi buscar um grupo de amigos para constituir seu colegiado de apoio.
Três anos de árduas tarefas, ensinos diversos e perigosos confrontos com opositores da nova doutrina.
Advertiu que alguns cairiam em tentação.
Denunciado, suportou a prisão e o martírio tendo unicamente Deus por companhia. Abandonado pelos amigos, aguardou três dias e voltou à convivência dos próximos, nunca mais se apartando deles.
E de nós.
Em tua solidão, liga teu pensamento a Ele e abandona a tristeza que porventura se insinue como erva daninha em tua floresta íntima. Busca quem não tem amigos e faze-te companheiro de jornada.
Quem adota Jesus como modelo e guia jamais estará sozinho, conquanto possa, em certo trecho da estrada, fazer a marcha sem companhias visíveis.
Numa pátria além das ilusões do mundo, muitos afetos nos seguem os passos.
Quem serve, prossegue.
Jamais sozinho!
O peregrino (Espírito)
Juazeiro/Ba., 23.10.2026
Médium: Marcel Mariano


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